Silêncios que Gelam

Silêncios que Gelam




As semanas foram passando e, à medida que a minha barriga crescia, algo dentro de mim começava a encolher, uma inquietação silenciosa que crescia em paralelo à sua chegada. Enquanto eu me dedicava inteiramente aos preparativos para te receber, filha, comecei a perceber uma mudança sutil — mas inegável — no comportamento do seu pai. E essa mudança, embora discreta no início, foi se tornando impossível de ignorar.

Estávamos montando o seu quarto com todo o carinho do mundo. Escolhemos cores suaves para as paredes, enchemos as gavetas com roupinhas minúsculas e adoráveis, compramos bichinhos de pelúcia que, mesmo imóveis, pareciam sorrir para nós. Era uma fase de construção, não apenas no sentido literal, mas também simbólico, eu estava construindo o nosso ninho, o nosso lar contigo dentro dele.

E, sinceramente, eu estava radiante. Conversava contigo o tempo inteiro, mesmo sem te ver ainda. Planejava cada detalhe, imaginava teu rostinho, teu choro, os primeiros passos, os abraços, tudo. E claro, queria dividir esse entusiasmo com o homem que estava ao meu lado, o pai da criança que crescia em mim.

Mas… ele parecia ausente. Não fisicamente, mas em espírito.

Toda vez que eu tentava puxar assunto sobre você, ele respondia com a mesma frieza mecânica de quem cumpre uma obrigação social. Um “hm”, um “tá certo”, um “quando ela nascer, a gente vê”. Era como se estivéssemos falando de uma reforma na casa, e não da chegada da filha dele.

E isso, Miska, me corroía por dentro.

A verdade é que aquilo estava começando a me deixar à beira de um colapso emocional. Eu sentia o sangue ferver a cada resposta apática, a cada silêncio desconfortável. Doía ver o homem que eu amava — que prometeu estar comigo para tudo — tratar a nossa filha com uma indiferença que mais parecia um aviso não dito.

Contudo, com o passar dos dias, o silêncio dele foi se tornando mais denso. Era como se ele estivesse lentamente se retirando da realidade.

Ele passava horas sentado no sofá, assistindo aos jogos do time de futebol americano dele como se aquilo fosse o único fio de conexão restante com o mundo exterior. Mas mesmo ali, com os olhos fixos na tela, ele parecia longe. As pequenas interações do dia a dia, coisas simples como decidir o que comer, escolher um filme ou até dividir tarefas da casa se tornaram mecânicas.

As palavras rarearam, os olhares também. Às vezes, ele passava o dia inteiro sem dizer uma frase inteira. E eu comecei a sentir que não havia mais uma troca, era como conversar com o eco de alguém que já não sabia mais como existir naquele espaço.

Seu pai não estava ali, não do jeito que eu conhecia.

Eu queria muito poder gritar. Eu queria exigir uma explicação, queria perguntar alto e claro: “Ô seu filho da puta, você tem noção do que tá prestes á acontecer, por acaso? Do quanto isso é importante pra mim?”

Então, por nós, eu tentava me controlar, mesmo que seu pai estivesse fazendo de tudo para que isso não acontecesse.

Mas eu não podia. E nesse momento da minha vida, qualquer estresse poderia afetar não só a mim, mas, sobretudo, a você.

Então, por nós duas, eu tentei silenciar a raiva. Engoli o incômodo e tentei me convencer, dia após dia, de que talvez aquilo fosse só algo que ele superaria com o tempo.


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